Às compras do fim de mundo!

Oi, o ano é 2026, Janeiro, inclusive, mas pararam de medir o tempo dessa forma, parece-nos desnecessário à realidade. Escrevo pra contar ao futuro sobre como era e como está, o mundo. Para ser bastante sucinto: o mundo acabou. Quer dizer, acabou mais ou menos. Acabou na forma que conhecíamos, porém, é engraçado que não “acabou” como qualquer pessoa crente do apocalipse (cristão [acho que era esse o nome que davam] ou não) imaginava. Vamos voltar um pouco, só assim o relato pode ser contado. 2020 (apesar de não medirmos o tempo em pequenas parcelas, ainda usamos a idade de Cristo) fora o que chamam os estudiosos aqui de “O ano das decisões”, já que, ali, formalmente, que se deram as primeiras problemáticas que hoje nos cerceiam. No primeiro período, uma guerra ameaçou acontecer, uma daquelas que se usam bombas de átomos pra acabar com o adversário. As partes chegaram ao acordo, ao custo de um ou dois pontos de dignidade. Então, outra coisa, quase alienígena, invisível e curável (exatamente, curável!) chegou à nós: COVID-19, é o nome genérico para um vírus do tipo corona descoberto (ou ao menos relatam) na cidade de Wuhan no território que antes era da China (essa parte eu conto mais pra frente), fora “descoberto” em 2019, mas se alastrou mesmo em 2020, quando, uma série de contaminações se sucederam de epidemia (na China) para uma grande epidemia (leste asiático) e finalmente não havia mais como rastrear o vírus, declararam (ninguém aqui fala exatamente quem declarou) pandemia. Juro, é menos terrível do que parece falando desse jeito, era um vírus perigoso, como todos os outros, mas por volta de Fevereiro de 2021, quando pelo menos metade da população mundial já havia se contaminado surgiu a vacina (a duras penas, claro), essa vacina, talvez, já nem fosse necessária, a humanidade se acostumou ao vírus, na realidade, e hoje todos somos infectados por ele, e ele nada faz conosco, não apenas pela vacina, mas pela biologia em nós, retardamos ao máximo os efeitos nas pessoas. Bom, como ruímos então? Eu digo: o vírus, quando na China, havia atingido o mercado financeiro chinês (alguma coisa que eu ouvi falar de uma tal bolsa de valores, será que essa bolsa era tão grande a ponto de caber um mercado todo nela? Eu não entendo). Nisso, o governo chinês assumiu posturas importantes para evitar o contágio (claro que não evitou, mas foi o bastante pra poupar boa parte das pessoas), uma dessas medidas foi o fechamento de tudo que se relacionava ao que chamam de “balança comercial” (disseram pra nós que é uma coisa tão complexa de entender que nem valia apena estudar). Isso culminou para várias crises econômicas de lugares que dependiam diretamente da economia chinesa. Mas o mundo não se alarmou, pelo contrário, ficaram calados o quanto podiam sobre o caso, não falavam para as pessoas o que estava acontecendo. Mas então, chegou um novo período dessa enfermidade, um período que hoje chamam de “período branco”, que era justamente a época em que o vírus começou a atingir os países do continente com nome de deusa… Não lembro. Nos ensinam que na Bota da deusa tudo começou, e fora o novo epicentro disso tudo. A partir dali, espalhou-se rapidamente e chegou bastante rápido ao Novo Mundo, do norte para o sul, sempre assim (as pessoas contam que não apenas doenças, mas problemas, catástrofes, problemas na economia sempre chegavam do norte para sul). As medidas do norte, dizem, foram contraditórias, os cientistas, hoje tão aclamados, eram culpados (não uma culpa real, mas imposta) pela estagnação do mundo como que fossem criminosos (efetivamente em 2024 se tornaram oficialmente, ao menos os que dedicaram a vida à história e a filosofia (ou alguma parte disso) foram mortos (chamamos de “expurgo”), mas essa é história pra outro relato). O norte não matou, mas apelou aos cientistas depois de os terem condenado (quando somos pequenos nos ensinam o que antes chamava-se “teoria da conspiração” e hoje chamamos “hipótese da conspiração”, e nos ensinam para que possam ensinar tudo o que essas “hipóteses” não são – e que sobretudo não são verdadeiras. Hoje, as pessoas que as pregam podem ser mortas, a pedradas, pauladas, ou coisa ainda mais sofrível pois “eles fizeram do mundo o que é hoje, esses são indignos da vida e dos nossos recursos”). Mas, continuando, apenas quando o norte pediu ajuda foi quando reconheceram o verdadeiro valor do cientista. Falam que duas cientistas do sul, de uma tal “terra em brasas” (as pessoas escolhiam nomes muito complicados de entender pro seus países), decodificaram o código genético do vírus com poucos recursos, investimento, trabalhavam apenas por amor (é uma coisa bastante rara de se encontrar hoje, já que recebemos rações, precisamos ajudar a produzi-las, falam que um cara chamado Carlos foi quem falou sobre isso num livro – queimaram todos os livros dele em 2023). É estranho pensar num mundo onde a sociedade queimava os cientistas cortando investimentos, falando mal deles, até menosprezando suas áreas, já que hoje são os cientistas que queimam padres e pastores (pastores por quê cuidavam de ovelhas de verdade?), “são mentirosos, nada no que dizem, no veneno que debulha de suas bocas é verdadeiro”. Recentemente inclusive queimamos um tipo específico de livro, se escrevia Bíblia, eu acho, mais estranho é o fato do nome ser em grego e elas estarem em vários (e completamente esquecidos) idiomas. Disseram que era perigoso, inclusive para a vida espiritual (é uma regalia para poucos se dedicar a algo relacionado ao intrapessoal – tudo, em teoria, deveria ser feito em comunidade), mas ainda existem filosofias de vida que se assemelham ao “religare” latino, quase todos da minha família são da filosofia Xao-lin. Esse longo momento de instabilidade no mundo estabeleceu “a parada” onde todos os países e continentes pararam suas atividades, relações não eram uma opção. O norte do Novo Mundo quebrou, entrou em colapso devido a falta de atividade, não mais se sustentava, nem mesmo quando decidiram por roubar os recursos dos aliados que possuíam. A escassez começou no mundo – ninguém produzia, ninguém comia (é complicado mastigar dinheiro, é um papel meio plástico, a gente come as vezes, quando é muito necessário…). A água também começou a faltar, empresas de refrigerantes, até aquela do urso branco,  não sabiam o que fazer já que para cada litro de refrigerante eram necessários 2 de água – os governos proibiram o comércio de refrigerante (consumia muita água, muito açúcar e sódio que podiam ser utilizados em cestas de ração) –, essas corporações começaram então a, literalmente, comprar ou invadir poços d’água, lençóis freáticos e todo lugar imaginável onde pudesse haver água potável (muitas pessoas do sul imigraram para um terra de gelo, onde ainda há muita água boa e limpa – daríamos bons dois gados gordos para quem possuísse o mapa), engarrafavam e vendiam a preço de refrigerante (há boatos de que uma garrafa de 2 litros de água (não tão pura) custava 30 dólares, seja lá o que for dólar, o decimal é alto para o dinheiro (eu acho). As pessoas que antes não comiam, morreram – dizem que os de pele escura sofreram mais, mas não entendo o que a cor da pele tem a ver –, as pessoas que comiam, se arrastavam e se deslocavam para muito longe a fim de comprar garrafas de água, nenhuma pessoa podia comprar mais que duas (minha mãe uma vez contou que era muito comum famílias de 4 ou 5 pessoas comprarem 8 ou 10 garrafas e os país, que deveriam possuir 4 garrafas juntos, se matavam pra que os filhos tivessem mais água). Ainda assim, as pessoas continuaram a morar nas cidades (hoje, grandes mausoléus). A comida ainda hoje é um problema, as vezes não temos ração para todos, animais de estimação foram proibidos, soltos e quem os escondesse, caso encontrados os bichos, mortos, às vezes colheita é ruim (mudança climática disseram – mas como o clima muda? Não faz sentido), às vezes animais morrem com raiva ou cólera e a carne é intragável (não que tenhamos tanta carne assim); comemos muitos (quase todos) os tipos de animais, mas não é como se houvessem tantos assim. Peixes existem, mas ainda vivem no mar, mar que é bastante escuro hoje, dizem que nem mesmo perto das praias podemos estar, animais marinhos dominam tudo, no mar nem pensar em tomar um banho, ao menos não aqui perto, a água invadiu uma ilha aqui do lado que possuía grande parte da reserva energética nuclear, a água está contaminada, e, segundo os nossos cientistas, continuará assim pelos próximos 580 anos – só então da pra tomar banho lá. Por incrível que pareça, os animais se adaptaram, ficaram ainda maiores para suportar os perigos da radiação, aliás, havia um mito de que baratas sobreviveriam em catástrofes nucleares, bom, elas morreram todas neste continente, alguns afirmam que é pela radiação causada pelo mar. Animais terrestres são seres completamente sagrados, intocáveis. Antes de consumi-los nós, da filosofia Xia-lin, agradecemos a esses que morreram para que sobrevivêssemos. Pouquíssimas espécies de mamíferos e anfíbios sobreviveram, com a água sendo completamente drenada pelos humanos, esses pequenos não tiveram muita chance. Neste continente sobreviveram alguns sapos que não se reproduzem na água, algumas espécies de cavalos, uma espécie de boi (que chamam de egípcio), tigres e várias cabras, os macacos (que eram animais muito semelhantes a nós) foram extintos, todos os tipos. As aves maiores, ainda vivem, ao menos as que alçam voos longos como falcões e águias, as de voo curto como galinhas e emas não sobreviveram, restaram poucos de todos esses. As aves menores perpetuaram e em grande quantidade, sobretudo porque trocaram algumas alimentações, o Fura-mosca comia néctar até algum tempo atrás, essas dietas  por flores não podem mais serem feitas, tudo que é predador quer uma flor hoje, não pelo gosto, mas porque ele sabe que ali nasce algo, e possivelmente algo que possa comer. Insetos ainda temos de monte, não sobrevivem a explosões nucleares, mas podem se esconder delas, baratas não existem mais, mas vagalumes e louva-deus ainda sobrevivem (sopa de louva-deus é uma das minhas refeições favoritas), as moscas se multiplicaram em número absurdo, há alguns quilômetros daqui fica o recanto das moscas, elas aprenderam a trabalhar em grupo e agora vivem em colmeias como era com aquelas moscas amarelas que faziam o negócio doce, tanto aprenderam que agora aumentaram seu tamanho ao dobro, isso tudo para que pudessem carregar a refeição para a mosca rainha (uma enorme fêmea de 10cm de comprimento), ou seja, arrastam os corpos até ela, que faz a primeira refeição, só então é permitido ao resto comer. Algumas pessoas que nós chamamos de “caçadores de moscas” ou até “belzebus” resolveram viver por lá, eles comem essas moscas, e não ligam pro barulho delas – acho até que podem ter evoluído como humanos, um Homofagus talvez? Um moço passou de viagem por aqui há alguns meses e nos contou que essa não é a única aglomeração de moscas que existe, falou que na Bota da deusa a região inteira é uma grande colmeia, lá não se vive, disse que quando se chega lá “ou você enlouquece com o zunido, ou morre com a sucção do sangue e esfolamento da carne”, também mencionou algo sobre moscas entrarem em orifícios e saírem por outros, mas enfim. Outro grupo curioso é o dos Antiluz que são pessoas que se uniram e se abrigaram debaixo da terra em estações (por que dar o nome de mudanças sazonais para um local abaixo de nós?), nessas estações as pessoas não vivem mais com luz, nem produzem as vitaminas que advém da luz, se adaptaram a escuridão de forma assustadora, ficaram um tanto quanto agressivos com quem não é do seu meio, perderam a pele (não a cor, a pele mesmo), então só possuem umas poucas camadas de pele transparente, falaram que da pra ver todos os músculos, perderam os dentes também, os cabelos e unhas são escassos, hoje nascem com os olhos cegos, cartilagens pontudas, e a única divisão de tempo que conhecem é a do cheiro das coisas que nascem e morrem ao redor, são exímios caçadores e ótimos manufatureiros! Possuem, não sei como, grandes reservas de metais. Existem algumas coisas que trocamos com eles (um tipo deles, pelo menos), como ervas, remédios e gado (eles fazem acordos até pelo gado intragável), em troca eles nos dão metal, metal fundido, e um pouco de água (essa a gente pega por educação, porque a água deles tem jeito de lodo mofado, cheira pior que o gado morto). Algumas regiões são divididas, entre reinos, impérios, ditaduras, grupos, aldeias e assim vai, tendo sempre como elemento vital a sobrevivência do máximo possível dos seus. Os mesmos que fazem pesquisa genética aqui hoje dizem que já existiam essas divisões de grupos humanos, mas todos possuíam algum padrão não apenas genético, mas um padrão de cultura (é um termo que nossos professores não sabem explicar), dizem que isso era trabalho de um tipo de gente, antropófagos acho… antro alguma coisa. Físicos, hoje, em seu tempo livre, se dedicam a estudar todo tipo de matéria – inclusive ninguém mais sabe diferenciar física de química, é tudo o mesmo pra todo mundo – e uma em especial é de meu interesse: a tal da economia. O Sr. Sargo, nosso professor de física na escola, estava contando como era essa matéria, e, para ele, ao que tudo indica foi uma galera desse tipo de estudo que fez tudo o que conhecemos de mundo hoje (digo isso porque eu realmente não me lembro de nada, eu possuía apenas 6 anos e fui carregado por um enorme deserto de gelo pela minha mãe, lembro apenas que dormi com o frio e acordei aqui, no Domo, dizem ser a antiga Pequim, seja lá o que for Pequim, quando acordei ela havia perdido um braço – ela disse que congelou e caiu pois usou a manga para cobrir-me mais, suspeito que na realidade tenhamos comido esse braço.). Ele disse que as pessoas seguiam um liberalismo (talvez o significado não seja o mesmo que hoje, liberais são gente que sobrevive sozinha, sem ajuda) que deu vez à alguma coisa (ninguém nunca fala se é um país, um deus, um pergaminho) chamada de capitalismo (capita=cabeça, ismo=doença; doença da cabeça?) que surgiu e fez com que todos fôssemos às compras (é um termo difícil de explicar, talvez o meu próprio professor deveria estar escrevendo isso) e ,de tanto comprar, o mundo acabou. Mas não do jeito que prevíamos.

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