Bem-vindos(as) à ciência
Por que precisamos das ciências moles?
A dificuldade de nos enxergar.
Que fique claro ao leitor, que não é uma disposição minha apresentar respostas e conclusões onde existem “felizes para sempre”. O que me cabe é fazê-lo indagar, questionar, refletir e flexionar os temas aqui abordados. Notavelmente, como o nome sugere, eu trato sobre ciências humanas e sociais. Todas as ciências são minha paixão, mas a que me fascina muito mais que as outras é a antropologia, então algumas vezes por mais que eu advogue mais para o lado dela, considere um desvio de caráter no narrador que vos atende tão mais quanto a culpa que tange a antropologia. Esse blog é um esforço (um dos últimos) meu para deixar algo registrado ou ao menos algo registrado e feito por mim, antes d’eu enlouquecer por completo. Nitidamente, inclusive, é um ensaio proposto por mim para me envolver novamente com produções escritas, e sendo ensaio eu lido como for mais interessante sobre a informação contida aqui. Vou tentar ao máximo, e de todas as formas possíveis, ser o mais digno cientificamente. Não se espante se meus sentimentos e digressões tomarem boa parte do texto.
Voltando o excerto ao que lhe foi proposto: como agem todas as ciências humanas? Por que são tão necessárias? Temos tempo, então vamos de pouco em pouco. Esse conjunto que abrange as ciências humanas e sociais é denominado Ciências moles. Tem esse nome sobretudo porque decidiram (e quando digo isso é tão mais no sentido de “a história decide” do que propriamente pessoas que se propuseram a isso) que ciências humanas e sociais não compartilham alguns modus operandi com relação as ciências tradicionais (sobretudo a física, a química e a biologia [podemos considerar também a matemática]), consequentemente as chamaram de ciências duras. Mas o que há de tão diferente nesses dois grupos? Como dito, a principal diferença é no modus operandi, mas duas características ainda mais notáveis as fazem divergentes: o fato de que teorias sociais não conseguem ser comprovadas de imediato (ou tão imediato quanto a ciência exige) – o que na verdade quer dizer que não há como testá-las (principalmente porque ninguém em sã consciência criaria um sociedade in vitro apenas com esse propósito). E há os que alegam que ciências humanas não são falseáveis, ou seja elas são o que são, como crenças, crendices e religiões, não só não podem ser experimentadas mas também refutadas. Tendo eu a discordar dos dois últimos argumentos. Nitidamente o “experimento” das ciências moles não pode se estender na primeira instância a sociedade, e é aqui que as ciências duras erram; basicamente, nós temos como meio de teste a sociedade, sim, mas não ela no próprio fato, a análise perpassa antes pelo passado já ocorrido daquele fato social que esboçamos em estudo, o comportamento no momento de registro dos textos não é apenas sobre a humanidade naquele contexto, mas consideramos tudo o que essa mesma humanidade viveu antes dali. Resumindo: o fato social já é autoexperimental, ele viveu, é daquilo que nos baseamos.
Um exemplo notável é socialismo que muitos atribuem a Marx. Karl Marx muito mais do que invenção do socialismo, institui uma nova escola de pensamento que foi atribuída à muitas ciências (economia, história, filosofia, economia política, ciência política, antropologia, sociologia). Esse mesmo socialismo do qual trata-se as duas obras mais famosas de Marx (O manifesto do partido comunista e O capital) justamente produzem o último argumento de que tratei. Assim sendo, o argumento cai por terra nos moldes atuais, afinal, o socialismo e o comunismo já foram trazidos à tona em diversos países, as experiências fundamentais foram a Rússia (URSS), Cuba e China. Sobre a Rússia: quando o socialismo chega na Rússia duas figuras importantes surgem dando o nome aos manuscritos deles de Lenninismo e Trotskismo, o que mais tarde viria a se refazer como Stalinismo – o que sugere por si só que nenhum desses sistemas era o comunismo ou o socialismo dito por Marx, o que também implica em dizer que são derivados dele. E neste caso, ele (próprio) não fora empregado. Sobre Cuba: as motivações começaram sim através da ideia de revolução marxista, e quando fora feita apenas os líderes dessa revolução se fizeram privilegiados. Com a morte posterior de Che Gue Vara, Fidel castro assume como líder e reivindica a revolução pra si, o que quer dizer que um módulo ditatorial fora empregado, e isso não é socialismo ou comunismo, podem até chamá-lo por esses nomes, mas a diferença entre o rosto e a máscara são notáveis. Sobre China: Mao Tsé-Tung lidera o que ele permite achar ser uma revolução (que no mais fora apenas compra de muitos votos do partido comunista) e pretendendo chamar-se socialismo. Em nenhum momento Marx previu uma ditadura particular, preservacionista e prolongada Partiu ele de uma proposta, sim da ditadura do proletariado que deveria ocorrer de forma rotativa, trocando o poder, não concentrando-o. A conclusão é simples também aqui: comunismo chinês ou maoismo não é socialismo.Num panorama geral e sucinto, podemos dizer que o comunismo (o primeiro período para atingir o socialismo) nunca fora reproduzido, sendo assim, nem mesmo podemos saber se o comunismo funciona já que nunca de fato existiu uma experiência comunista. O que podemos dizer, na realidade, é que houveram as experiências das revoluções, que não conseguiram estruturar um sistema de igualdade social já que as forças do mercado são maiores do que as das revoluções. Isso nos permite concluir que as revoluções deram certo, mas não se prolongaram ao ponto de atingir o comunismo.
Falsear o argumento quer dizer que ele está disponível para questionamentos, revisões, reproduções. Neil deGrasse Tyson nos diz que “A ciência atua na fronteira entre o conhecimento e a ignorância sem medo de admitir que não sabemos. Não há nenhuma vergonha nisso. A única vergonha é fingir que temos todas as respostas.”; e nunca as ciências moles admitiram que sabiam de algo irrefutável, ao contrário, sempre dispomos de outras pessoas a nos verificar e textos que conversam entre si (ou concorrem tal qual Freud e Malinowski), necessariamente um livro de Weber não contém todas as respostas. E, ao contrário, Olavo de Carvalho dirá que os dele têm, quando na verdade o que ele tem são especulações (das quais muitas falsas e diretamente ofensivas para quem trabalha, ama e admira a ciência) embutidas de ódio e xenofobia. Ainda mais que isso, as ciências humanas e sociais são voláteis, muito mais que química ou física, por um elemento em especial: lidamos com pessoas; e pessoas são instáveis, correm riscos, pensam diferente, acreditam em verdades diferentes, morrem por verdades destoantes e matam por verdades irrefutáveis.
A beleza intrínseca nas ciências moles, ao menos para mim, é justamente observar pessoas que as acreditam desnecessárias fazem uso dela, tal qual alguém que diga nas redes sociais que “o brasileiro precisa ser estudado”, acredito que essa pessoa nunca teve contato com Darcy Ribeiro ou Guimarães Rosa.
Por fim, as ciências moles são necessárias, para mim, porque entender o humano e as entidades imateriais é necessário, pesquisar a mente humana, o comportamento, fazer entender o que move montanhas além da fé, e principalmente, mostrar ao mundo que elas existem e são tão sólidas quanto qualquer outra ciência. Talvez não um porquê, mas o que me motiva a querer continuar nesse caminho é a revolta. A raiva que sinto não é das pessoas, mas da ignorância. O meu combate pessoal é contra o retroceder e a falta de conhecimento. Além do medo que me rodeia de tornarmos a voltar ao ponto mais macabro do pensamento humano, um nova idade das trevas, mas dessa vez não apenas da Europa, mas de todo um mundo sem informações científicas. Esse ruminar termina aqui, caro leitor.
Bem-vindo às ciências moles.
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