Ou como nos fazem pensar que é
Hoje tive, mais que em outras oportunidades, a chance de ver meu pai trabalhando, fazendo negócio. A discussão por trás desse trabalho era sobre qualquer coisa que tenha a ver com quadros elétricos e disjuntores. Sobre o que eu quero conversar é de que forma e maneira pensamos que um “homem” de negócios é, e o que na verdade é uma pessoa de negócios.
A palavra negócio surge durante a era de ouro do capitalismo. Particularmente no português ela é literalmente a junção de duas palavras: o verbo negar, e a palavra ócio, logo “negócio” é literalmente negar o ócio. Nesse sentido conseguimos entender que existe um sentido voltado para o capital. E não apenas isso, há capitalismo embutido, e há o sentido religioso. Quando na idade média onde o catolicismo era a ordem última do universo, o trabalhar era uma função apenas voltada para a plebe, o povo que fora condenado por Deus a trabalhar. Enquanto isso, o suserano, ou o rei, descansava pleno em seus castelos (uma semelhança que vale a pena lembrar é que a nobreza da idade média não era muito voltada para o intelectualismo e as artes, mais ou menos como os burgueses brasileiros. Burgueses que acham que a cultura burguesa não depende nem da estética nem da leitura.). Eu poderia ser dissimulado e dizer que eles ficavam observando os plebeus trabalhando, mas até isso era uma tarefa tamanha enfadonha (o que trás mais criatividade do que o tédio? Muitas ideias para torturas, expansão da igreja e matanças de bruxas surgiram assim).
Passada essa era, por volta dos séculos XV, XVI, XII, vê-se um fenômeno da ganância: o metalismo (não vou explicar). E nesse ínterim é que se desenvolve, fomenta e é criada a ideia cristã-evagélica, (um descendente tosco e fragmentário do catolicismo), reformista, de que “o trabalho dignifica o homem”. Essa frase está imbuída de problemáticas. O primeiro argumento que ela sustenta é que, diferente de como os católicos defendiam o trabalho como punição, o trabalho é na realidade uma dignificação que torna o homem mais próximo de Deus, já que (1) Deus trabalhou 6 dias na criação e (2) Adão fora presenteado, não punido, com o dom do trabalho com as duas mãos (imagino que aqui se use o argumento de Noé, cujo fora escolhido por Deus para fazer um trabalho). Logo, defendendo esse pensamento, luteranos e calvinistas concordaram que o trabalho não apenas dignifica o homem como também é um louvor à Deus. Constitui-se então os séculos onde algo que eu gosto de chamar de primeiro capitalismo fora desenvolvido, esse capitalismo apoiado e incentivado pelos liberais do Reino Unido tem uma característica em particular o define diferente dos capitalismos posteriores. Ele era sustentado essencialmente pela busca ensandecida de metais preciosos como o ouro e a prata, ele é rudimentar, se importa e é seletivo quanto aos negócios que faz, e notavelmente faz com que a nobreza seja menos valorada do que os grandes empresários (burgueses). Ele também produz um teor significante em relação ao gênero: ele define os modelos do luteranismo e do calvinismo na relação entre homens e mulheres, assumindo que toda produção intelectual, filosófica e científica, expedicionária fossem de gênero masculino. Possivelmente você já deve ter observado o grande número de filósofos em crescimento nesse período, sobretudo na Inglaterra, França e Alemanha. Note também que os mais famosos são homens, que, inclusive, em sua maioria, possuíam passagens em seus ensaios e tratados sobre as mulheres. Na verdade, a pauta é ampla: vai desde o porquê mulheres são inferiores até o comportamento na vida diária, em casa e na rua (onde não podia envergonhar o homem da casa).
Pulamos uma parte da história, e nos recobremos ao presente. Toda essa explicação é simplesmente para nos fazer pensar sobre o que é ser um “homem” de negócios. Em sua fase mais voraz, o capitalismo suga todos que dele participam, não porque emprega as pessoas, mas as fazem competir; não porque as alimenta, outrossim, destrói a mente dos menos afortunados. A falha em admitir-se “homem” de negócios é a simples tragédia da falácia meritocrata. Os que não possuem condições são ainda inferiores aos que possuem e tem medo, esses inferiores ao que possuem e fazem errado, e esses divinamente inferiores aos que possuem e fazem dar certo.
Muita gente se usa de pirâmides para tratar sobre assuntos sociais. Fazemos um exercício. Imagine que as pirâmides sejam substituídas por um ciclone ascendente (largo em cima, estreito embaixo). Agora imaginemos que toda a luta de classes, a subdivisão delas, os malefícios e benefícios estejam rotacionando por esse ciclone. Sentido horário as pessoas sobem para cada vez mais perto do céu. Sentido anti-horário, as pessoas descendem ao nível do solo. Pois bem, dentro do ciclone ainda possuem muitas pessoas que, tanto quanto você, querem estar mais próximas das nuvens. As possibilidades são inúmeras, por isso um ciclone, elas são muitas e difíceis de se agarrar, precisam de tempo, e retornarão (ainda que com possíveis mutações), nunca de ascendente ou descendente. Ainda dentro do ciclone, imagine-se no lugar em que queira nascer, vamos considerar a fins de encurtar o texto apenas três: embaixo, no meio e no topo. Embaixo você nasce sem recursos, sem oportunidade, sem expectativas grandiosas, nem a ciência nem a “civilização” parecem chegar à você, mas então você resolve se dedicar, e cria suas oportunidades, continua com uma vida ruim mas ainda melhor que antes, e você sabe que o que lhe impede de conquistar o topo é passar pelo meio, o que significa que mesmo em 100 anos talvez não o resolvesse. Você ainda não passaria pelo meio por completo, tempo esse que o(a) mataria.
Ao meio: você nasce no meio, sabe que não faz parte do jogo do capital, aceita sua posição, não vive a fome, a doença ou a guerra, é uma vida plena. Porém você quer acreditar que o esforço lhe dará as ferramentas da mudança, seus pais fizeram faculdade, então o que você pensa em fazer é estudar, se tornar um grande cientista político e a assim o faz. 27 anos com graduação em ciências políticas, um mestrado em economia política, você fala inglês porque seus pais o colocaram na escola de inglês desde os 10 anos, você fala espanhol porque é uma língua que estava disponível em seu ensino médio particular numa boa escola preparatória para vestibulares, e você fala francês porque conseguiu ser autodidata nessa língua. Você começa a carreira em um partido político o qual acha mais correto e justo, eles o colocam dentro de lugares onde o poder é discutido (não exercido), primeiro em fóruns, depois em gabinetes, e finalmente você vê que eles não eram lá os mais honestos, descobrindo inclusive um grande rombo no fundo partidário que você sabe que foi o antigo líder que o fizera. Se alia a outro partido, sabendo que não são tão honestos, mas você entende que uma ou duas compras de votos são necessárias. Você chega ao ápice de sua carreira: deputado federal, vê ali uma oportunidade para transformar o mundo. E só o que tem são suas palavras que não conquistam os não comprados (que são maioria). Nada muda. Essa caminhada árdua leva por volta de 50 anos no total, mais os seus 20 que fora quando começara, 70 anos você tem. Já é menos do que os 100 anos propostos, você ascende no ciclone, eleva o nível capital de sua família, as coisas que queria mudar continuam iguais. Você chegou perto de estar dentro do jogo do poder, mas não tão perto quanto queria.
Ao topo: você é de família abastada, não apenas burguesa como nobre, e sabe disso, seu pai possui título de nobreza de toga que ganhou de seu pai que ganho do pai de seu pai. Você tem um nome bonito, vivera sempre com empregadas em casa, e pais que trabalham exageradamente muito, não consegue imaginar seus pais sem trabalho. Você é branco(a), mas não faz a menor diferença para você, afinal sempre houvera um ou dois negros perto de você no seu berçário trilíngue, fundamental em escola de elite, onde também tinha uns 2 negros (e pra você, aquilo sempre foi justo, é o que existia em sua realidade), em que você aprendera rapidamente a ler, e lia livros como Hamlet e A divina comédia. O que dizer do seu ensino médio então? O passara a fazer todo na Escócia, um país que seus pais amam mais do que “essa porcaria de Brasil”. Quando voltou fez parecer ENEM e FUVEST provas do jardim de infância porque sabia tudo de cor, filosofia, matemática, geografia. Você passa em seu curso de Design de interiores, na USP onde, agora, você se depara com um número enorme de negros, não da nem pra contar. E você estranha, é tudo diferente das universidades escocesas, tudo é (nitidamente) mais velho que você, o chão não é limpo o suficiente pra comportar seus sapatos da Louis Vuitton. Que dirá daquelas carteiras na faculdade, sujas e pichadas (a degradação desenhada) em que você quase não se apoia no braço para escrever. E aquele lanche da cantina? Eca! Você sempre comeu cordeiro, faisão, toma apenas leite de amêndoas porque é alérgico(a) a lactose, comia bacalhau fresco com azeite, raspas e pedacinhos de trufa branca; e você vê aqueles salgados fritos, brilhando de gordurosos, se perguntando “como pessoas podem comer isso?” E você enxerga muita gente tomando coca (todos os dias), e a única água que está sempre com você é uma garrafa de Voss. Um dia, no quinto semestre, você se depara com uma cena odiosa: dois garotos negros com camisas rastafari fumando maconha (algo notavelmente desagradável porque seus pais sempre disseram que “homem que fuma é feio, agora mulher…”) apoiados no seu Mercedes conversível que na verdade é um modelo de cinco anos atrás que você ganhou do seu pai de presente de 18 anos, que veio prontamente com a carteira de motorista, e você nunca pisou em uma escola de pilotagem. Decide que não aguenta mais essas pessoas nojentas, vai fazer qualquer outra coisa em qualquer outro lugar do mundo que não seja o Brasil e África, porque é esse o problema desses países subdesenvolvidos e de terceiro mundo (se referindo à todos os países subsaarianos): as pessoas não sabem o que é etiqueta, comer com uma variedade de garfos, não sabem o que é o intelectualismo e a ciência verdadeira, não entendem que precisam se esforçar! Você se muda para Portugal e seu pai paga o curso de direito em Coimbra. Nada mudou, você continua a ser quem era desde o nascimento.
As poucas mudanças não fazem o ciclone social parar de girar, muito menos girarem ao seu favor. A infelicidade é a estagnação num mesmo lugar dele e as pessoas trocarem um conforto, ou um consolo, na vida (digamos como uma reforma política de well fare state) pela chance de 0000000,1% de serem ricas. Promessa essa suplantada pelo capitalismo, o mercado (VENDA MAIS!), as formas vorazes em que nos transformamos para atender aos pedidos de uma ideia nebulosa e tempestuosa. O capitalismo não é amigo de ninguém, as regras são ilusões, não importa de que forma: arranje dinheiro ou morra na miséria. Dinheiro esse que é papel. É papel no bolso, na bolsa e nos bueiros; É papel que vale uma ideia, papel nojento porque todos tocam nele mas pode ser papel digno se vier de alguém que aparentemente é um gentleman. Ainda mais, a forma ascendente não é à toa: quando na base do ciclone, o que somos, de onde viemos e o que fazemos não é nada, e nos amontoam como animais de bandos, a diferença é que para o gado tem espaço, para humano não.
Literalmente o culto, o louvor e o sacrifício são lidos como esforço, dedicação e mérito. O mito do mérito. Mito que faz sangrar, causa de expectativas estrondosas e decepções que atingem a alma do sujeito nesse processo. As pessoas de negócios somos nós. Todos nós que nos deixamos levar pelo mito do mérito. O mundo que se vira para sobreviver em meio à fragilidade de um sistema tamanho que lobotomiza os sujeitos ao ponto de não entenderem o ponto de fricção, que é onde ele quebra. As pessoas de negócios não se fazem por gênero, são todos os labores, o sofrer e os choros. Ser uma pessoa de negócios não tem a ver com o que você faz, mas ao que você sabe. Nenhuma dessas características são méritos, não são merecidos, não existem possibilidades fora das possibilidades que existem. A resposta sincera e única aqui é “a educação transforma”, se não transforma, ao menos transtorna o suficiente para querer transformas. Acabamos aqui.